” … ao mesmo tempo que a gente tinha aquela situação de esgotamento, de cansaço, criou também, pelo menos pra mim, uma ânsia de (…) querer  estar frequente dentro da UTI e querer estar acompanhando os meus pacientes de  perto, de ajudar e participar mais”, descreveu um dos médicos que trabalhou (e trabalha) na linha de frente contra a Covid.

Foram 37 dias internado em Unidade de Terapia Intensiva, sendo 27 deles em coma induzido, e uma certeza: a de ter vencido a Covid-19 graças aos médicos e suas equipes. Essa história é do ex-professor universitário Rogério Santos Pedroso, que não cansa de agradecer aos médicos, como fez nas suas redes sociais, ao publicar uma linda carta.

“Um dos momentos mais importantes da minha vida, além da recuperação, foi testemunhar de perto (…) o trabalho heroico e anônimo de um médico intensivista que dedicava todo o seu tempo e conhecimento em ajudar os pacientes a recuperar a plena saúde; a ensinar uma equipe de jovens médicos e a comandar as ações de uma equipe de enfermeiras no trabalho de medicar e cuidar dos pacientes. A você que é médico o meu respeito e minha gratidão”, declarou.

Rogério Santos Pedroso após vencer a Covid-19. (Foto: Divulgação)

Assim como o Rogério, todos os dias, nestes 19 meses de pandemia, um pai, uma mãe, um avô, uma avó, passou pelos cuidados de um médico que, apesar dos dias exaustivos, de preocupação com o cenário que se vivia e com a própria família em casa, tinha a responsabilidade de cuidar de um paciente, de uma pessoa que estava ali, num leito de hospital, isolado, com uma doença até então desconhecida no mundo.  Quem trabalhou (e trabalha ainda) na linha de frente, como estamos acostumamos a descrever, sentiu dia a dia essa angústia de querer fazer mais do que podia.

“Os primeiros meses foram bastante difíceis. Nós nos preocupamos em proteger a equipe, pois nosso maior medo era que os profissionais adoecessem junto, que se afastassem e a gente não conseguisse atender a população. O aumento dos casos graves foi muito grande, depois da chegada efetiva da onda e o nosso maior receio era a escassez de recursos, de vagas”, relembra o médico Luccas Vieira de Magalhães, que atua na UTI Covid do Hospital Azambuja.

Segundo o médico, essa preocupação ocorreu “pois a carga de horas trabalhadas estava extremamente desgastante, sem contar a descrença que havia sobre a gravidade da doença, sendo que muitos médicos e colegas da equipe chegaram a ser atacados e acusados, por familiares desconfiados de que o quadro não fosse tão grave, que não fosse real ou queriam invadir o hospital para visitar ou fazer companhia para os pacientes que estavam em isolamento”.

“No meu caso, eu me sentia bastante ansioso, cansado e vi muitos colegas tendo dificuldade de lidar com os níveis de estresse, com esgotamento psíquico mesmo, de surtar, chorar, desabar. Foi uma situação muito difícil, tentar dar o suporte para o colega que está nesta situação. Mas ao “mesmo tempo que a gente tinha aquela situação de esgotamento, de cansaço, criou também, pelo menos pra mim, uma ânsia de (…) querer estar lá mesmo assim, estar frequente dentro da UTI e querer estar acompanhando os meus pacientes de  perto”, relatou. Além disso, o médico descreve que “no Azambuja, a equipe da internação clínica sempre procurou fazer a conduta baseada no que se tinha de evidências científicas, que embasassem e respaldassem a nossa conduta” nos atendimentos, assim como no Centro de Triagem, criado pela Secretaria Municipal de Saúde.

AÇÕES EMERGENCIAIS

Brusque foi uma das cidades onde a resposta para combater o coronavírus se apresentou mais rápida. Em março do ano passado, no início da pandemia, foi criado o Centro de Triagem. O CT começou com um grande movimento e persistiu por mais de um ano, atendendo de 450 a 500 pessoas por dia, sendo que distribuiu até o momento, mais de 1 milhão de comprimidos, vitaminas e analgésicos, anti-inflamatórios, antitérmicos e medicação sintomática, em geral para sintomas respiratórios. 

“Também foram deslocados muitos médicos das Unidades Básicas de Saúde para o CT, fazendo com que restringíssemos o atendimento nas unidades de um modo geral e houve um bom entendimento da população”, lembrou o médico e secretário municipal de saúde de Brusque, Osvaldo Quirino. Atualmente a ala destinada a pacientes com Covid-19 já foi desativada e os pacientes estão sendo acomodados em dois leitos, sendo uma parte masculina e uma feminina, em dois quartos com cinco leitos.

OS PROFISSIONAIS

Quando o Brasil chega a mais de 600 mil brasileiros que perderam a chance de ver um filho crescer, de estudar, de abraçar pais, amigos, esposas, esposos. Fica o legado de profissionais que trabalharam pela saúde de outras pessoas e de futuros médicos, que se uniram aos mais experientes para salvar vidas.

Segundo dados da Associação Catarinense de Medicina – ACM, desde o início da pandemia, foram registrados mais de 40 óbitos de médicos em todo o estado de Santa Catarina, além das perdas de profissionais de saúde que atuavam junto no atendimento aos pacientes contaminados pelo coronavírus, mas que eram fundamentais de linha de frente no combate a pandemia.

Por outro lado, estão os novos médicos que também enfrentaram uma pandemia pela primeira vez, como foi o caso do Daniel Duarte Ferreira. Aos 28 anos de idade, o mineiro chegou a Brusque em março deste ano, para fazer sua Residência Médica no Hospital Azambuja e realizar um sonho, em plena pandemia.

Daniel Duarte Ferreira espera que a pandemia esteja chegando ao fim. (Foto: SECOM UNIFEBE)

“Eu sabia que trabalharia de frente com o Covid, mas nunca, durante a graduação esperava passar por um escala pandêmica tão grande. Foi um sentimento que esbarra em apreensão, tendo em vista que vários casos não evoluíram bem, mas pensamentos também com a minha família, que está em Minas. Minha avó foi internada recentemente, mas passou bem. Mesmo de lá meu avô ouve rádio de Brusque para saber como está aqui. Ele sempre me abençoa com bons conselhos, todos os dias, praticamente, e sempre me fala: muito cuidado, meu filho”, conta o Daniel. Ele completa dizendo que, espera “de coração que estejamos chegando ao fim desta pandemia que modificou tanto a vida de todos, mas o sentimento em relação a medicina é de que (…) devemos tentar ser mais completos como médicos e trazer a humanidade que nos falta nestes dias tão incertos”.

E para quem ainda estava no primeiro ano da faculdade de medicina e se deparou com a pandemia? Foi o caso do brusquense Bruno Arnon Bittencourt. Hoje, aos 31 anos de idade, lembra do ano passado, quando durante uma prova, o professor comunicou que não haveria mais aula presencial e que iniciaria ali um período de isolamento, pois estávamos em uma pandemia.

Bruno conta que naquele momento começaram as preocupações com os parentes, principalmente com os avós que moram na mesma casa e com os amigos, pois ninguém sabia como seriam os próximos dias. Após as medidas que foram sendo tomadas, com os treinamentos que haviam recebido durante o curso de medicina e, com a chegada das vacinas que, segundo o estudante, são a “peça chave” para salvar vidas, o cenário foi mudando e a certeza pela profissão ficou ainda mais clara.

“Nunca tive tanta certeza de uma profissão na minha vida e o fato de poder ajudar e saber que é uma profissão tão necessária, só me dá certeza de alegrias. Em tempo de incertezas como agora, a gente tem a esperança de fazer o nosso melhor como aluno para, lá na frente, vir a ser tão corajoso, tão útil e tão dedicado como nossos colegas que vem enfrentando tamanha peleja. Sairemos vitoriosos, fazendo o melhor para todos, o melhor para nossa sociedade”, descreveu o futuro médico.

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