Aumento de casos aos borbotões, UTIs em colapso, reações débeis de governos, o vai e vem da vacina, os negacionistas fazendo força na sua rotina nefasta de dizer que “tudo está normal”, a “segunda onda” que começa sem saímos da primeira… E se eu disser a vocês que isto tudo “me surpreende” creio que serei um tremendo hipócrita.

As notícias de esgotamento de UTI vindas dos hospitais OASE (Timbó) e Dom Bosco (Rio dos Cedros), somadas as complicações em Blumenau e o “toque de recolher” só mostram ainda mais que o teste de paciência entre o brasileiro e o coronavírus é, cada vez mais, uma vitória contundente da Covid. O cerco parece tão pior quanto foi há alguns meses, quando os números assombrosos começaram a aumentar antes de uma leve queda, da falsa sensação de segurança que levou loucos as praias e bares noturnos aos montes.

Ignorância, agonia fútil e desespero pelo status e por “mais um fim de semana de diversão” levam a isso. Vejo amigos compartilhando em perfis agitos praianos e noturnos irresponsáveis com os dizeres “isto é vida”. Patífes e ignorantes que, ao mesmo tempo que se assombram, não se percebem do risco que correm indo na contramão do convívio responsável que tanto se fala. Máscaras ao ar e bora viver, num rumo que pode ser o caminho de um cotonete no nariz.

Aliás, o maior veneno – e, consequentemente, o maior adubo do Covid – tem sido o maldito status social que as redes provocam. A sensação de que “tudo é possível” neste turbilhão todo assusta. É como se você, ai do outro lado, sentisse-se, nas palavras de Raul Seixas, um “grandessíssimo idiota, humano, ridículo e limitado” por algo que não se vê e que te impede de viver a vida como sempre viveu, isto na ótica dos demagogos que ainda vomitam o “se eu tivesse em casa..” como desafio carniceiro a ameaça.

E não vou dar de hipócrita aqui: eu também sai, convivi e, muito raramente, me diverti neste período antes dos aumentos de agora. Mas o convívio responsável é possível se podemos respeitar os simples toques de segurança que o momento pede. Eles não custam nem um esforço, mas como quase todo comportamento saudável a nossa saúde, são esquecidos e negligenciados em todo canto e lugar, por um abraço, beijo, uma corrida ao ar livre… “A máscara atrapalha”, dizem, atrapalha mais do que o mesmo cotonete que dissera antes.

Somos vítimas da ignorância que nos forjou muitas vezes diante das adversidades. Não que todos nós somos, mas somos cercados pelos que são. Rir do perigo é um incentivo vindo do alto, da alta esfera de poder deste país que comanda os gritos negacionistas entulhando as ideias de cloroquinas da vida e provocações. “vai morrer tudo”, “uma gripezinha” e por aí afora. Salve-se quem puder nesse tufão diário, onde só os enfermeiros e seus EPIs suados são nosso último baluarte quando alvejados pela ignorância de outrem.

E nesta maré, somos impedidos pelos ignorantes diários de, ao menos, termos um natal decente. Nós o teremos, tanto ele quanto o ano novo, sem dúvida. Serão momentos de reflexão e muito, muito cuidado com os nossos. Digo OS NOSSOS, mas e os dos ignorantes? Daqueles que vão ao litoral ou as ceias natalinas e noites de réveillon desprovidos de sensibilidade e prontos para começar 2021 na corda bamba da doença? O mal que veio dos feriados de outubro e novembro vai se multiplicar, vamos falar ao vento sobre cuidado, estamos fazendo o possível.

E é nesse quadro, entre medidas débeis e ignorância latente que assistimos atônitos, e as vezes calados temendo as repreendas violentas dos cegos, o Covid deixar o Brasil sem rumo. E nós, catarinenses de várias partes, somos parte desta nova vergonha epidemiológica: a tentação por mais um drink ou uma salga corporal é maior do que o cuidado com a vida, onde quer que você vá. Reflexo de um conservadorismo ou contemporaneidade que vê as benesses e não os riscos, que acredita no imediatismo de uma vida futilizada e não no cuidado que permitirá a verdadeira liberdade.

Que vamos sair dessa, vamos…, mas não aprendemos nada. A ignorância impera, o status mata e o corona, outra vez, ganha de lavada.

Cuide-se!

Comentários