Por que não me surpreendo?

Não, sinceridade mesmo, por que não me surpreendo diante da barbárie perpetrada por uma justiça vinda de um estado em desagregação?

Não, não me surpreendo. Os arranques de vômito diante de tudo isso não me deixam nem pensar direito. Vem quantos palavrões possíveis na minha mente, pois situações ultrajantes como esta só mostram duas coisas mais da forma mais latente possível: vivemos entre seres irremediavelmente machistas, narcisistas, corruptos e hipócritas… E o que pesa ainda mais, tudo isto dentro da outrora “Santa e Bela Catarina”.

Pra falar de Mariana, voltemos a 1977, quando Ângela Diniz, socialite e presa a uma vida matrimonial baseada no machismo de Doca Street, foi morta pelo marido com três tiros no rosto e nuca. No julgamento, a tese da defesa jogou a culpa do assassinato no comportamento de Ângela, invocando a nefasta figura da “legitima defesa da honra”. Inocentado, Doca não foi muito além no seu cinismo e, em 1981, um segundo julgamento o condenou a 15 anos de cadeia.

Volta mais um pouco no tempo. Aida Curi, 18 anos, torturada, violentada e assassinada por três rapazes e, ao desmaiar depois da sessão de horror, foi jogada do topo de um edifício na Avenida Atlântica, no Rio. Um investigação confusa, reviravoltas e penas brandas para seus executores. Tudo isso em 1958.

São só dois casos num mar imenso. O de Mariana é outro que se avoluma, tratado com uma impunidade tão nefasta, tão nojenta e lúgubre que fica difícil concentrar-se para pensar em termos inteligíveis para descrever o sentimento de revolta. Outra vez, como quase todo dia entre fiu-fius e depreciações midiáticas, a mulher é feita de boneco, culpada de ser a “provocação” de seus agressores que, “coitados”, não tem culpa dela ser o que é.

Mariana foi estuprada, violentada, ridicularizada no seu direito, humilhada, execrada pela macheza, pela indiferença de ser um corpo que, “por sua sensualidade, instigou o pobre coitado que não sabia o que fazia”. E essa violência não falo da noite do ocorrido, mas da outra cena do crime constituída aos olhos cegados da justiça desproporcional brasileira.

Como homem, me envergonha profundamente dizer que estes também são ditos “homens”. Eles, como tantos outros, carniceiros diurnos, noturnos, que comem as capacidades da mulher com os olhos e palavras objetificando, rebaixando, rasgando a dignidade e direitos conquistados como um nada no horizonte. E não importa a posição da mulher em questão, é uma mulher, uma vida, um ser, não é possível uma cegueira deste tamanho (mas ela existe).

E a vergonha replica ainda mais forte quando tudo isso vem do meu estado. Do alto de todas as intolerâncias e comportamentos bestiais de catarinenses que justificam a má fama adquirida com o tempo, dando a entender que vivemos em idades primitivas, nos orgulhando da branquitude e machismo impregnados nas esquinas do norte, Vale, planalto, oeste e litoral dessa terra.

Enfim, não me surpreendo… me revolto, me indigno e não engulo. “Estupro culposo” é desculpa esfarrapada de moleque que não sabe o que fazer com a culpa do crime que cometeu. Faz chacota com a justiça para dizer que “não sabia” e que foi provocado a tanto, ignoram pois eles o óbvio ululante e que passa do adiantado da hora de um basta definitivo: estupro, e qualquer crime de atentado a honra física e moral da mulher, é CRIME, crime penal, que deve ser punido com o rigor de uma verdadeira lei independente da conta do banco que tenha.

Não deixem este episódio morrer como tantos outros. O machismo deve ser execrado, arrancado desta sociedade para não mais existir. Infelizmente, enquanto houver mídia, comportamentos e atitudes que assim o levem, o jeito é driblar as pedras contra os sãos, contra as mulheres, suas vítimas fatais. O fiu-fiu da esquina em busca de um corpo pode esconder muito mais do que intenções carnais podres.

Talvez outra Mariana na próxima esquina, em seu calvário… e não se surpreendam, peçam um BASTA, nada mais.

Comentários