Desabafa empresária de BC que foi vítima de estupro quando criança e também foi atacada pelo advogado que humilhou Mariana Ferrer

O advogado criminalista  Claudio Gastão da Rosa Filho, que defendeu o empresário André de Camargo Aranha no julgamento do caso de estupro da jovem Mariana Ferrer e que agrediu a vitima verbalmente, já intimidou outra vitima de estupro no passado. A empresária Sandra Bronzina, de 29 anos, moradora de Balneário Camboriú, relatou a nossa reportagem que foi intimidada pelo advogado quando tinha 13 anos, durante a audiência do julgamento.  

Sandra atualmente  é diretora da agência Donaire, empresária, modelo, voluntária em causas sociais e já foi entrevistada pelo Paraíso do Improviso em outras ocasiões, justamente pelo engajamento que tem nas causas comunitárias. Hoje, dia 06, pela manhã, ela publicou um desabafo em suas redes sociais. Confira:

 “Chega de silêncio! O sistema precisa mudar. Antes que comecem as críticas e julgamentos, claro que não sou nenhuma pobre coitada, já fui vítima sim, mas hoje eu tenho força para me posicionar e usar minha voz contra qualquer tipo de injustiça contra qualquer mulher! Não quero aparecer não Dr. Gastão, quero apenas desmascarar as tuas lágrimas de crocodilo que um dia me disse ter se arrependido e nunca mais defendido um caso de estupro! O teu ganha pão é a desgraça alheia, não o nosso!

Entenda o que aconteceu com Sandra

Sandra Bronzina foi abusada sexualmente pelo seu pai quando era criança. Aos 11 anos ela fez a denúncia mas o pai só foi preso oito anos depois, devido a uma falha no sistema. Mais tarde, aos 13 anos, a história de terror se repetiu. Resolvemos deixar o relato dela na íntegra, pois assim é possível compreender melhor tudo que uma mulher sofre para provar a sua própria dignidade.

“Aos 13 anos de idade, voltando da escola, fui abordada por um estranho, sequestrada e sofri um estupro. Toda violência física e psicológica durou uma hora e meia, precisei implorar pela minha própria vida. Por sorte, e talvez por Deus, eu sobrevivi. Tive de entrar novamente na delegacia da mulher para registrar o Boletim de Ocorrência e dar início a um novo processo contra o desconhecido que havia feito aquilo comigo. Na delegacia, ainda com a sensação de pânico, após passar por uma cena de terror, tive de fazer meu exame de corpo de delito no IML, e o exame foi feito por um homem, a figura que naquele momento eu mais repudiava. A frieza com a qual fui tratada é indescritível. A falta de humanidade nesse momento termina sendo uma segunda agressão a qualquer mulher que tenha que recorrer ao poder público. O homem que me estuprou foi preso quatro meses após a denúncia. Tenho muito nítida na minha memória a audiência do estupro, onde tive de enfrentar o melhor advogado criminalista do estado, que defendia o meu estuprador (o advogado Gastão). A maioria das pessoas na sala de audiência eram homens e eu não pude entrar acompanhada. Minha mãe pediu para que eu tivesse cuidado com as palavras, afinal, meu estuprador era um homem endinheirado e havia contratado o melhor advogado de Santa Catarina. Tranquilizei ela e disse que tinha a verdade ao meu lado. Mas, quando entrei na sala, a primeira coisa que Gastão falou para mim foi: ‘eu já vi aqui que você foi estuprada pelo seu pai antes’. Como um homem estudado olha para uma criança e diz algo desse tipo? Eu fiquei revoltada. Disse a ele que não entendia o motivo da pergunta, porque o crime cometido pelo meu pai em nada diminuía a gravidade do crime que o cliente dele havia cometido. Hoje eu tenho consciência da força que uma mulher precisa ter para denunciar, se curar física e psicologicamente e ainda conseguir fazer justiça provando a própria dignidade. A sociedade precisa constranger e envergonhar abusadores, agressores e violadores. E o Poder público deve agir em defesa da dignidade e autoestima destas mulheres, isso é fazer justiça”, desabada Sandra.

Anos mais tarde, aos 25, ela encontrou Gastão da Rosa numa festa de premiação. “Resolvi cumprimentá-lo. Na hora que cheguei, ele esticou a mão e se apresentou. Disse que o conhecia, pois ele havia defendido meu estuprador quando eu tinha 13 anos. Para minha surpresa, ele repetiu a mesma frase: ‘eu lembro de você, você já tinha sido estuprada pelo seu pai antes’. Fui ao banheiro chorar e entrei em pânico. O Gastão me ligou depois, pediu desculpas e me disse que nunca mais defendeu um estuprador após o meu caso. Como se viu na audiência da Mari Ferrer, o que ele falou para mim não era verdade. É um sujeito sem escrúpulos e com zero sensibilidade”, afirma Sandra.

Na quarta-feira, 04, a Comissão Nacional da Mulher Advogada, da OAB Nacional, condenou as agressões proferidas pelo advogado e considerou que o tratamento recebido pela vítima foi inadmissível. “A violência de gênero não pode ser usada como estratégia de defesa”, diz o comunicado. 

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