“Por que é tão difícil para os humanos se unirem, para lutar contra o inimigo?”

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, é talvez o personagem-central no meio do enfrentamento do coronavírus. Nascido na sofrida Eritreia, ele talvez imagine o que é a falta maldita de união entre pessoas e interesses contra um inimigo comum. E não é pra menos, seu país-natal é um regime autoritário na região do chifre da África e sofre com isso desde 1991, quando se tornou independente.

União, soma de ideias contra um inimigo comum, que falta faz isso hoje em dia. Contaminados pela polarização esquerda-direita, muitos governantes e autoridades insistem no confronto em vez da comunhão de ideias em busca de uma saída da pandemia. Uma discussão ignorante e desnecessária feita sob os corpos de tantos já mortos dia a dia, sobretudo nas duas mais complicadas nações imersas na pandemia atualmente: os EUA e, claro, o Brasil.

Mas a tal da união que Tedros suplica e os ignorantes (sobretudo os de esquerda e direita) dão de ombros está longe. É quase uma utopia, nestes últimos tempos, uma palavra conciliadora dos homens de decisão diante da pandemia. A população não entende, contraria e segue seu turismo macabro enquanto o embate entre insanidade e razão queima, especialmente nas redes sociais.

“Por que é tão difícil para os humanos se unirem, para lutar contra o inimigo?”. Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, e um pedido que esbarra na disputa política em que o coronavírus está imerso (Reprodução)

Mas enfim, por que falo, no título, de “uma lição do espaço” enquanto falo de união e ignorâncias na terra? Quando voltamos a esta polarização, sobretudo em julho deste ano, recordo-me de um dos raros momentos em que, em plena Guerra Fria, americanos e soviéticos permitiram-se aguçar a curiosidade entre si no espaço que não conhece diferenças, muito menos o que era a tal da “Guerra Fria”.

O raro momento de paz e sorrisos da Apollo-Soyuz completa 45 anos neste mês. E em tempo que se pede união entre “ideias diferentes”, o exemplo vindo do espaço talvez possa trazer alguma luz e, quem sabe, nos lembre que, em dados momentos de conflitos, um apertar de mãos em comum diga muita coisa sobre o que, realmente, importa. E que, neste raciocínio, esqueçam-se os interesses formais, foque-se apenas neste momento de troca entre Washington e Moscou.

Uma lição de união que supera diferenças, e que andamos precisando rever e reaprender. Em julho, a missão Apollo-Soyuz, responsável pelo último ato da corrida espacial, completa 45 anos, com momentos únicos de confraternização entre americanos e soviéticos (Reprodução)

A missão Apollo 18 decolou do Cabo Canaveral no dia 15 de julho, mesmo dia que ascendia ao espaço partindo do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a missão Soyuz 19. Era o ponto máximo depois de tão esperado encontro de americanos e soviéticos já nos finalmentes da corrida espacial, que vinha perdendo velocidade desde o começo dos anos 1970.

Enquanto a NASA preparava o fim do programa Apollo, o programa Soyuz mantinha-se satisfeito em superar o tempo de permanência no espaço, isto depois de duas tragédias registradas, com a morte de quatro cosmonautas no total. A Guerra Fria tomava outros contornos e as duas superpotências viviam seus problemas internos: estagnação, instabilidades políticas e conflitos perdidos em outros países.

Neste contexto, a ousada missão de acoplamento das naves Apollo e Soyuz soava não só como um avanço que permitiria maior dinamismo nas missões conjuntas no futuro, mas também um momento simbólico de encontro pacífico entre as duas potências no espaço depois de anos de corrida, mortes, glorias, sangue, suor e lágrimas.

Do lado americano estavam os astronautas Thomas Stafford, Vance Brand e Donald Slayton, e do lado soviético comandavam a Soyuz os cosmonautas Alexei Lenov e Valeri Kubasov. Além de experiências científicas diversas, as tripulações visitaram as duas naves ligadas, trocando presentes, flâmulas e sementes de cada pais, a serem plantadas no outro.

Os personagens da missão: de laranja, os astronautas Thomas Stafford, Donald Slayton e Vance Brand. De verde, os cosmonautas Alexei Lenov e Valeri Kubasov. Um encontro espacial para a história, uma lição para a humanidade (Reprodução)

Na internet, é possível encontrar documentários e programas especiais que explicam a missão. E para quem conhece história, é impossível ficar indiferente as imagens de reunião e confraternização entre americanos e soviéticos sabendo do bastidor que viviam. Naquela mesma época, o grande Hélio Ribeiro fazia um dos mais fabulosos comentários no rádio sobre o feito, incluindo uma “comparação” nos modos de vida entre russos e americanos e selando com um pedido de “um novo começo” nestas relações.

Veja as imagens e ouça, abaixo, o comentário de Hélio Ribeiro:

A missão durou perto de 10 dias, entre a decolagem, o período de espaço e a volta à terra. Mas as imagens de astronautas e cosmonautas em confraternização foram a atenuante que o mundo precisava diante das sempre tensas relações entre EUA e URSS que prendiam a respiração do mundo em cada movimento. Algo quase como o que vemos hoje, quando a pandemia e seus movimentos nos mantém tensos, preocupados, e sem nenhuma perspectiva de união, de combinação de ideias contra um inimigo em comum.

Um momento dos tantos de reunião entre soviéticos e americanos no espaço, o cumprimento entre Slayton e Lenov. Foram, aproximadamente, 10 dias de missão e muitas lições e trocas entre cosmonautas e astronautas (Reprodução)

Das missões espaciais, a Apollo-Soyuz é uma das menos lembradas entre os amantes do mundo espacial, mas sua lição entre direita e esquerda apertando as mãos num espaço que não conhecia diferenças ou tensões políticas soou como um recado ao mundo de que apenas as fronteiras conhecidas entre dois países eram a diferença maior num planeta de humanos, de almas que só pedem a paz.

É tudo o que se deseja plenamente, enfrentar um inimigo mão com mão é tudo o que Tedros pede, e mesmo que pareça um pedido improvável, que esta lição vinda do espaço seja um ponto inicial para se pensar que grandes batalhas se vencem juntos, olhando pelo mesmo lugar, para o mesmo sol que os cinco olhavam naqueles dias no espaço, em 1975.

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