A manhã de 17 de julho de 1980 pode ser seguramente considerada a mais triste e sombria da história da televisão brasileira. Era o capítulo final de uma trajetória de pioneirismo, aventuras, mas também de desmandos, sucateamento e ingerências.

Depois de horas de vigília, a histórica Rede Tupi era tirada oficialmente do ar por determinação do então Departamento Nacional da Telecomunicações (Dentel), cumprindo decreto presidencial de cassação. Era o capítulo final de uma crise longa, sem saída e que traz implicações e discussões até hoje.

Ha quase uma semana atrás, o canal do YouTube Video Archives Brasil soltou na rede um documento, definido certeiramente por ele, como “basilar da TV brasileira”. Trata-se dos últimos 50 minutos de transmissão da Tupi do Rio de Janeiro, a última que sobrevivia no ar antes de ter seus equipamentos de transmissão nos estúdios da Urca lacrados pelos oficiais do Dentel.

O trecho é emocionante e, para muitos entusiastas da história como eu, faz marejar os olhos sem nenhum exagero. Fantasiado por muitos aficionados da minha idade, o momento derradeiro da Tupi era apenas construído na imaginação por meio dos relatos do último dia da emissora e de suas afiliadas lidos em livros. Uma vez que os arquivos em filmes e fitas quadruplex que restaram tornaram-se peças de extrema raridade, ainda mais quando caem na web.

Assis Chateaubriand nos estúdios da Tupi carioca, em um momento dos anos 1950. A primeira emissora de TV do país chegou aos anos 1970 com grandes planos, mas igualmente com grandes problemas financeiros e técnicos, além das divergências entre dirigentes das afiliadas (Reprodução)

Inaugurada em setembro de 1950, fruto do pioneirismo de Assis Chateaubriand, a Tupi definhava e vivia ali seus últimos 50 minutos de vida, num espetáculo beirando o dantesco e melancólico na tentativa desesperada de manter a emissora no ar. Foi quase uma década de crise, entre brigas entre diretores, perda de caixa publicitário, demissões e problemas técnicos e financeiros. As greves começaram a se seguir no final dos anos 1970 e a alta cúpula do Dentel começou a perceber o problema: a situação, se não era uma balbúrdia, estava insustentável.

A cassação foi assinada um dia antes, em 16 de julho, tornando peremptas (não-renováveis) sete das 10 concessões da Tupi, o que afetava não apenas o canal 6 carioca mas também sua segunda cabeça-de-rede, o canal 4 de São Paulo, e suas afiliadas, entre elas a TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Piratini (Porto Alegre), TV Rádio Clube (Recife) e TV Marajoara (Belém). E no momento final, apenas a emissora do Rio persistia na tela, numa vigília de quase 24h quase de joelhos, pedindo sem pudor na tela para que a Tupi continuasse no ar.

As imagens que seguem são pesadas para quem sente a emoção de forma fácil: Entre depoimentos e pedidos à JB, o choro incontido e momentos dramáticos, tudo culminando com a última carta lida pelo locutor Cérvio Cordeiro intercalado com imagens da visita do Papa João Paulo II (poucas semanas antes do ocorrido) e da desolação dos funcionários antes da saída total do ar.

Relatos pessoais, um desmaio, gente alternando-se entre o desespero e uma falsa esperança, tudo isto antecedendo-se a chegada dos oficiais do Dentel, que retiraram o cristal e outras peças do transmissor as 12h36 da manhã, seis minutos além do horário estabelecido pelo decreto para a retirada do ar da Tupi. Curioso é que todo o último “espetáculo” ainda gerou 12 pontos de audiência no IBOPE e pautas mil para os jornais do dia seguinte.

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Posteriormente, uma nova licitação para os canais do Rio e São Paulo foi aberta, juntamente com a absorção de todos os ativos da emissora. Como sabemos, a TVS (hoje SBT) de Silvio Santos foi uma das vencedoras da nova concorrência, ocupando o canal 4 paulista e iniciando a consolidação de sua rede já em 1981.

O canal 6 foi para Adolpho Bloch, que consolidou a Rede Manchete em 1983 mas que teria o mesmo destino da Tupi, sucumbindo as dificuldades financeiras e saindo do ar em 1999. O restante dos ativos, como o edifício da Tupi no Sumaré, foram para a Abril Radiodifusão e permitiram o funcionamento da ESPN Brasil e da MTV Brasil, esta última que ocupou o prédio entre 1990 e 2013 até a volta dos direitos do canal da música para a Viacom.

O assunto “fim da Rede Tupi” ainda mobiliza pessoas em torno do tema. Análises, painéis e discussões entre entusiastas da história da televisão estão, até hoje, trazendo novos detalhes que enriquecem este momento. Se hoje a TV brasileira tem uma história (mesmo que, as vezes, conturbada), ela nasceu de uma casa simples e praticamente a lenha, cujo os últimos minutos de vida agora estão diante de qualquer um na aldeia da internet.

A história como tal, em seus meandros, merece ser preservada e revista, mesmo que as emoções pareçam incontidas diante da agonia da primeira a se chamar “televisão” no nosso país.

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