O que é isolamento para você nestes tempos?

Confesso que fico me perguntando isso por muito tempo durante este período de distância de quem mais gostamos. Alguns estão longe da família, outros dos amigos mais próximos, alguns longe do amor, de velhas rotinas, de diversões, e tudo respeitando ao máximo o que se pede a todos os ventos a nossa volta: prevenção, prevenção, prevenção.

Já faz tempo que não saio das fronteiras de Blumenau. Desde março, para ser exato, alguns dias antes da quarentena. Era um domingo quando vi, em aglomero pela última vez, pessoas sorrindo sem máscaras, se abraçando, confraternizando um momento musical que vivemos no Museu da Música (Salão Hammermeister), no aprazível Dona Clara, em Timbó.

Tudo parecia tão longe até que, num movimento, tudo parou por alguns dias. É claro que muito tempo já passou, muita coisa se abriu e, pelos meus caminhos, muita gente já se arriscou. E eu aqui, no meu esforço preventivo, perguntando-me se quem é o paranoico sou eu ou quem está pelas ruas é o louco que coloca seu semelhante em risco neste turistar fora de tempo.

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Entre todas as normativas que preconizam o distanciamento, uma delas proíbe aglomerações, ainda mais as festivas. Aquelas baladas de fim de semana de muitos são um atentado à saúde pública na atual conjuntura. Mesmo assim, as denúncias de festas e “baladinhas” clandestinas pipocam. Falta de consciência? Ignorância total em meio as notícias e informações? Desassossego dentro de casa depois de dias isolado?

Eu realmente não faço ideia, não tenho uma resposta concreta. Para mim, a parte que me cabe em prevenir-me contribui veementemente para evitar que traga eu para dentro de minha casa – e para meus pais, já idosos – o coronavírus e suas nefastas consequências. No entanto, olho para o lado e outro amigo e amiga andam de bicicletas, visitam outros amigos, contemplam a natureza… Será mesmo que tomam seus cuidados? O corona está no ar, no que você tocar, e não é paranoia, é realidade, é fato.

Muitos que lerão estas linhas dirão que exagero, mas não é mentira alguma. Estamos no olho do furacão e, graças a confusão política e social quanto a prevenção e a politicagem desnecessária de momento, vivemos dias negros, incertos, onde a prevenção firme de uns é o exagero para outros. Típico de nós, brasileiros, onde acostumamo-nos a ver o ato certo, correto, como o “otário” da história.

Eu mesmo preconizo a mim mesmo que em julho devo “retomar” alguns costumes: um café com amigos, uma ida à Timbó à trabalhos, alguma outra viagem mais longa. Mesmo assim entro em contradição comigo mesmo: estou fazendo o certo? estou deixando de dar o bom exemplo em troca de um prazer momentâneo? São mil dúvidas dia a dia, e as notícias pouco alentadoras aumentam ainda mais esta confusão.

Que a prevenção e os cuidados sem medida são via de regra, isto é fato e de direito de toda a forma. Não dá para pensar nesta volta – ainda que na ponta dos pés – a rotina em deixar de lado a máscara, o álcool gel e as medidas simples de afastamento e a criatividade na hora do olá ao amigo ou amiga. Mas, ao mesmo tempo, o isolamento de outrora começa a se tornar uma lenta volta a velhos hábitos, dentro deste universo preventivo.

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E neste dito universo, falamos do tal “novo normal”. Permitam-me, estamos bem longe disto ainda. Se não “muito longe”, talvez seria “longe até uma vacina e/ou um tratamento eficaz surgirem”. O normal vivido agora é um normal dentro da realidade preventiva. Usamos máscaras, o álcool gel e tomamos nossos cuidados. É um normal diferente, necessário nestes tempos de cautela, e por isto, ainda um momento propício a reflexões.

Este “novo normal”, para muitos sãos como eu e você que me lê agora, virá acompanhado de uma ressignificação de N elementos ao nosso redor: consumo, interpessoalidade, estigmas sociais, política, mundo a nossa volta, nosso espírito e nossa consciência para com nós mesmo e com os ao redor. E contrariando o niilismo de Fábio Porchat, quero acreditar que eu tenho mais gente me acompanhando neste discurso que mistura fé e esperança em tempos mais calmos, se não forem eles tempos melhores.

Portanto, o que seria o isolamento? É além da prevenção que precisamos continuar praticando para nós e para quem está a nossa volta. É um tempo de repensar mágoas, perdoar, limpar nossa mente de pesos passados. Tempo de, verdadeiramente, revisar tudo o que carregamos de errado e duvidoso conosco e saber que, dependendo de você e de quem está ao seu lado, o mundo não será mais o mesmo, mas poderá ser melhor de alguma forma para você e seus semelhantes.

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E assim, feliz fico em saber que, se não te soar paranoia, isolar-se mesmo que, em vez ou outra bem espaçada e cuidada, um café inocente ou uma volta de máscara pelas vielas do seu bairro seja um momento de reencontro com uma liberdade cercada de cuidados, mas que voltará renovada e repensada, de novos olhares, novos sonhos, novos amores.

Então, te deixo a pergunta dentro de tudo isto: o que é o isolamento para você?

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