Angústias compartilhadas

Eu olho para os meus amigos que tem a mesma idade que eu e vejo algo muito comum: um turbilhão de dúvidas e incertezas sobre o futuro. Se você nasceu no início dos anos 90, ou até antes disso, vai entender do que estou falando. Nossa geração pegou uma transição, que foi boa e ao mesmo tempo ruim. Por um lado, arrisco em dizer que fomos a última geração que soube o que era “brincar de verdade”. Me refiro a brincadeiras comuns até um tempo atrás à crianças, como bonecas, carrinhos, jogos e principalmente aquelas brincadeiras que eram feitas fora de casa: pega-pega sapatas, esconde-esconde e por aí vai.

Não eram poucas as vezes em que nos reuníamos com todas as crianças da rua, do bairro, para se divertir. Corríamos, nos machucávamos muitas vezes (prova disso são as cicatrizes que nos acompanham até hoje), e até brigávamos com os amiguinhos, mas no outro dia tudo estava bem e a diversão continuava. Nossos pais tinham que nos chamar para dentro de casa, porque escurecia e continuávamos brincando na rua. Tivemos experiências que os nascidos depois de nós não tiveram, como a dificuldade em ter internet em casa (ainda bem que as lan houses salvavam a pátria!), em ter telefone e eletrônicos que hoje são tão comuns.

As redes sociais e de relacionamentos acompanharam nossa adolescência, era a efervescência da internet: quem não lembra do seu perfil do Orkut ou conta no MSN? Éramos intensos, queríamos descobrir e mudar o mundo. Enxergávamos a geração passada, aquela do irmão mais velho, se realizando profissionalmente, dando certo, e pensávamos: logo será a nossa vez. Eu me imaginava formada com a idade que tenho hoje, super bem sucedida, sepá até casada já pensando em ter filhos. Mas alguma coisa não funcionou pra nós, e aí surge o outro lado da moeda, porque os passos para alcançar o sucesso da geração passada não se aplicaram pra nós. E agora?  O que fazer? Parece que estamos perdidos, não sabemos qual a fórmula certa. Uma faculdade já não basta para ter um bom emprego. Experiência também não.

Os relacionamentos começam e terminam muito rápido, não sabemos em quem confiar e, ao mesmo tempo, temos medo de não achar a pessoa certa. Fomos incentivados a essa “independência” em relação ao outro e embarcamos na onda do “não se apega”, isso pode ter sim nos prejudicado. Quantas vezes você evitou um possível relacionamento porque achava que não era a hora? Quantos bloqueios emocionais fizemos em nós mesmo, porque, afinal, ter um relacionamento mais sério parecia, às vezes, até sinônimo de fraqueza. E o que menos queríamos que pensassem fosse que somos fracos, as pressões eram muitas e as expectativas também. Hoje nos vemos perdidos, esperando o emprego ideal, a independência financeira, o apartamento dos sonhos e, mesmo que negamos, o amor de nossas vidas. Estudamos, lutamos, abrimos mão de estar com pessoas amadas para ir atrás de nossos sonhos, mas parece que o caminho não é tão simples como nos contaram. Onde erramos? Erramos? Ou ainda dá tempo de o futuro nos surpreender? Estamos perdidos dentro de nós mesmos.

Greici Siezemel

(P.S: eu escrevi esse texto em 2017. De lá pra cá, os sentimentos são quase os mesmos)

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