E como ela me convenceu a lavar o cabelo antes de dormir

Sabe aquele dia que você só pensa em chegar em casa e descansar? Pois é, hoje foi assim! De manhã fui pra rádio, no início da tarde tive uma reunião de trabalho, depois saí pra pauta da TV. Cheguei em casa às 20h e fui direto pro mercado: não tinha mais comida. Finalmente terminei todas as obrigações do meu dia, exceto a de atualizar esse site, onde você lê mais um desabafo da madrugada. Pensei: “amanhã eu atualizo”. Dia chuvoso, friozinho, só pensava na minha caminha. Aí lembrei que tinha que lavar meu cabelo ainda, porque minha reportagem da tarde foi no Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú. Meeeeu, que preguiça de lavar e secar os cabelos a essa altura da noite pós um dia intenso de trabalho. Confesso que pensei em deixar pra amanhã, mas aí lembrei de um episódio que aconteceu hoje, que me fez mudar de ideia e que eu não poderia deixar passar despercebido. Foi o único momento da minha quarta-feira que eu desliguei o automático e fugi do meu script da TV. E tem a ver com o fato de lavar os cabelos hehe.

Pois bem, eu tinha marcado uma entrevista com a Secretária de Saúde de BC, a Andressa Hadad, pra falar sobre o laboratório que começou a funcionar na cidade feito exclusivamente pra testar o coronavírus. Às 16h30min eu tava la, como combinado, aguardando minha fonte. De repente surge um homem, vestido como enfermeiro ou médico (não sei qual a função dele) e me pergunta se eu poderia aguardar alguns minutos, que a Andressa logo viria. Eu disse que sim, mas que precisava falar com ela até umas 17h (sabe como é essa história de deadline de jornalista!).

Acho que se passaram uns 20 minutos e a Andressa apareceu. Quando olhei pra aquela mulher vindo em nossa direção, confesso que quase não reconheci. Conheço a Andressa há quase um ano, assim que me mudei pra cá comecei a fazer matérias com ela. Mas dessa vez foi diferente. Bastou eu olhar pra ela pra perceber que minha entrevistada de hoje não era a “Secretária de Saúde de Balneário Camboriú” (aquilo que a gente chama de GC no jornalismo e que vocês enxergam na telinha quando aparece alguém na TV).

Andressa não estava de salto, com o cabelo escovado, solto, nem maquiada (algo super normal pra uma mulher que ocupa um cargo tão importante!). Ela estava tal qual o colega que tinha vindo dar o recado do atraso. Vestia jaleco, o traje completo da enfermaria. No momento eu não entendi. Aí ela me contou que também é enfermeira e que estava ali trabalhando, ajudando no laboratório que acabava de abrir no município para testagem do vírus. A pauta não tinha nada a ver com isso mas eu, curiosa que sou, perguntei como ela conseguia fazer as duas coisas em um momento tão difícil. A resposta foi uma só: “eu escolhi ser enfermeira por amor. Quando a gente faz o que ama, até o cansaço é recompensado”.

Antes de dar o rec na câmera, Andressa foi confirmar uns dados pra me passar. De longe vimos ela se alongando, inclinando as costas pra frente e pra trás numa tentativa de driblar as dores no corpo desses dias tão intensos. O cansaço estava ali, nítido, na nossa frente. Depois de ter cumprido com a minha obrigação de jornalista, quis continuar a conversa de bastidores. Andressa me contou que tem tido jornadas gigantes de trabalho, que intercala sua função de secretária com a de enfermeira. Ela é uma daquelas pessoas que está bem mais exposta ao vírus, já fez pelo menos 5 testes do novo coronavírus. Graças a Deus continua bem de saúde. Me explicou que antes de vir conversar com a gente, tomou banho e passou por todos os procedimentos de desinfecção pra que nós pudéssemos estar seguros na entrevista. Me contou que já adotou um protocolo quando chega em casa: deixa as roupas que usou no trabalho porta a fora de casa, entra  e vai correndo direto pro banheiro, pra não colocar ninguém em perigo. Aí vem a história do cabelo, que falei antes pra vocês. Ela me disse: “Greici, eu não aguento mais lavar meu cabelo todos os dias” e deu risada. Só quem é mulher e tem cabelo comprido vai entender a complexidade dessa frase. Eu disse que tinha achado os fios mais claros, mais bonitos, ela brincou mais uma vez: “Eu sempre tive um sonho de ser ruiva. Agora que estou virando, se eu pegar o coronavírus, pelo menos realizei esse desejo antigo” e riu mais uma vez.

Fiquei pensando na força da Andressa até agora e achei que deveria contar essa pequena história pra vocês. Ainda mais que essa semana foi comemorado o dia do enfermeiro, uma profissão que nunca foi tão essencial. Andressa representa muito bem a classe, mas não só isso, ela também representa a força da mulher. Não sei nada da vida pessoal dela, nem faço questão de saber. O que eu sei e o que eu vi hoje foi o suficiente pra perceber o coração generoso de uma secretária que trocou o salto alto pelo jaleco e a touca. Parabéns Andressa, você inspira muita gente, inclusive essa jornalista que agora pode dormir em paz.

 

Por favor, não politizem o meu texto. Eu nem voto aqui. Boa noite.

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