José Magnoli. Paulistano nascido no distante 1935, homem de grande cabeleira e voz barítono marcante. Fora das ondas um ator, advogado, publicitário, pintor, escultor, compositor e professor. Nas ondas, o jornalista, radialista, narrador, por vezes intitulado como “a magia do rádio brasileiro”.

Um gigante de nossa radiodifusão a qual vejo olho no olho como uma referência no rádio em todos os sentidos e que tenho procurado ouvir muito nos últimos tempos em minhas horas vagas. Seu nome de batismo era José, seu nome para as ondas hertzianas era Hélio, um homem da comunicação que fez da mesma comunicação uma poesia diária, pura e simplesmente.

Observando seus registros espalhados pela internet, entre traduções musicais e mensagens, a gente que vive no meio rádio percebe latejando que a comunicação, no seu cerne, também permite que, na agilidade diária, a redação radiofônica também possa ser uma mensagem quase artística, entre o idílico e o expressionista. O rádio amigo, informante, vira arte versada, vertida e instigante a quem o ouve e o consome como tal dentro deste molde.

Nestes dias em que o meio rádio e a pandemia se misturam, a forma de comunicar que Hélio Ribeiro pregava chega próxima a algo semelhante a uma consulta psicoemocional. Desde o “Correspondente Musical” – onde já dava demonstrações de sua criatividade e conhecimento – passando ao “O Poder da Mensagem” – assertivo em suas reflexões ora do mundo popular, ora da sua mente fértil – em todo o momento era notável esta forma potente e incisiva que confortava, convidava a reflexão ou ao sonho do amor, tão atraente e classuda até os dias de hoje.

(Reprodução)

Quando falamos desta forma de fazer rádio, as vezes me pego pensando no que também eu faço em comunicação, seja no rádio ou nas lives que faço para A BOINA nas quartas a noite: como devo transmitir a mensagem? Como devo programar a música para que ela, como tal, toque a mente e o coração de quem a ouve? Como posso fazer disto tudo a verdadeira essência do rádio e da comunicação como fazia, tão brilhantemente, Hélio Ribeiro? E ainda, como fazer isto por mim, sendo eu mesmo e com meu próprio estilo?

Desde que voltei de Timbó, militando na tradicional União FM, essa visão da programação musical como uma arte me fascina. Diante de mim, uma infinidade de músicas que não devem, simplesmente, seguir um modelo randômico. Seria frieza demais diante de um ouvinte que espera ser surpreendido, tocado com um som que traz boas lembranças ou que apresente um novo nome da música atual. Colocar vinhetas e sons por simplesmente “colocar” não soa muito sensível.

Essa reflexão do que é programar música – sobretudo em tempos de pandemia e isolamento necessário – é ainda mais profunda. A sensibilidade não está em livros de qualquer língua, mas sobretudo no feeling que o programador tem, seja dentro ou fora da emissora. Ele anda pelos lugares, ouve os sons, senta-se diante do roteiro a ser editado e, peça por peça, vai montando aquilo que vai mover mais que o ambiente, mas a mente, a alma, o sentimento de momento do ouvinte que está do outro lado naquele instante, naquele dia.

E é por isso que digo sempre: é fácil ser randômico, difícil é ser sensível e sentir que, além do que o mercado e as tendências mandam, a mescla do clássico com o moderno, somada a mensagem certa, traz um pouco de humanidade e sentimento em cada curva musical do dia. Tal qual uma mensagem, aquela mensagem que Hélio Ribeiro – ele de novo – alinhava quase que perfeitamente no momento em que sua voz ecoava nas ondas. É sensibilidade pura, o verdadeiro sentido da “amizade” que o rádio tem desde que Marconi o concebeu.

E de volta ao meu momento entre os amigos no virtual e meu microfone, sou tomado por esta inspiração. Não uma cópia de Hélio, mas uma forma que some a classe do locutar a sensação de saber que você domina a sua voz e a sua mente quando quer ser ouvido “de verdade”. A mensagem soa assertiva a cada palavra que você fala, acompanhada dos seus trejeitos próprios e maneirismos que te tornam especial e simples, compreensível até mesmo na hora mais informativa possível do rádio-live.

(Reprodução)

Se eu estou fazendo a coisa certa, posso não saber, mas mesmo que, comercialmente, isso não se venda, ao menos do outro lado sei que tem alguém ouvindo não só uma música colocada “por colocar” ou uma mensagem “dita por dizer”. A sequência musical tem sentido para estar ali bem como as palavras, mesmo nascidas da opinião ou do conteúdo, tem sentido para estarem sendo ditas como são. E não basta, novamente, ser randômico e simples, mas colocar aquela sensibilidade que falta muitas vezes no cotidiano, aquela que a correria, talvez, nos roube dia a dia.

Esta reflexão há muito tenho feito e só agora consegui colocá-la em forma de crônica num papel a esmo. Isto é o que sou no rádio, na comunicação. E em tudo que faço, no seu cerne, é reflexo do que surge diante de mim nas ruas e esquinas, no subir e descer dos dias. E, com certeza, tem também o espelho e inspiração em quem fez história seguindo preceitos de livros mas, também, seguindo a sua sensibilidade pessoal refletida na voz barítono que possuía: Hélio Ribeiro, a tal “magia do rádio brasileiro” que me referia no começo dessa reflexão.

E é isso, simples assim. Comunicar, rádio ou live, exige mais do que roteiros e rotinas, mas aquele olhar apurado e inteligente que poucos tem e que nem sei se eu mesmo o tenho. Cultive a sensibilidade e não esqueça que, do outro lado de cada música ou mensagem, tem um ouvinte que espera que a “magia do rádio” o contagie, independente do tempo, do momento, do lugar.

Isto é rádio. Gratidão, Hélio!

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