Lima Duarte parece estar certo: “a Chapeuzinho Vermelho se encantou pelo Lobo Mau”. O velho ator – que arrematou seus 90 anos recentemente – foi taxativo e expressa o que muitos artistas sentem com relação a colega: desamparo, distanciamento, negligência com relação a uma das classes mais sofridas neste período de pandemia: a artística.

O silêncio de Regina Duarte mostra, infelizmente, o tratamento destinado do governo federal a arte brasileira em todas as suas faces: música, teatro, artes plásticas, dança, cinema. Apoiadora de carteirinha de Bolsonaro, a veterana atriz conseguiu, em pouco tempo, afundar suas glorias do passado com a ausência de atitudes diante da penúria que muitos artistas passam, quase num estado de martírio diante da acefalia cultural e científica dos tempos atuais.

Tenho conversado com artistas de várias frentes, na sua maioria cantores, e a cada troca de palavras um temor: o do amanhã. Muitos estão buscando se reinventar no meio virtual ou procurando formas alternativas de completar a renda seriamente prejudicada com a impossibilidade de organizar shows ou de novos projetos.

Os artistas independentes, que praticamente dependem de seus talentos para a subsistência, são os que mais sentem o temor dos tempos que virão. Agendas de shows foram rasgadas, o futuro é uma grande nuvem até que venha alguma certeza e a busca de alternativas, como a simples costura de máscaras, tem sido a sina de muitos. Doloroso, especialmente quando nada vem de quem está lá justamente para o amparo destas alas.

Há algum tempo, a notícia de que a Alemanha (gol da Alemanha, como sempre) iria oferecer ajuda financeira a artistas prejudicados pelo coronavírus soou como um grande exemplo a ser seguido por outros países. A ministra da Cultura alemão, Monika Grütters, foi direta ao perceber a situação e pedir ao governo o diálogo com sua classe artística: “estou ciente de que essa situação coloca um grande fardo para as indústrias culturais e criativas e pode causar angústia considerável, especialmente para instituições menores e artistas independentes”, disse.

Se suas demandas estão sendo atendidas, ninguém sabe, mas dar o passo já é um sinal de consideração com quem dá o tempo da sua vida para colocar plateias, ouvidos e paredes, mesmo com a marcante característica de transgressão que permeia o cerne da arte. Uma realidade bem diferente da brasileira, onde a transgressão natural e a criatividade são vistas como elementos “subversivos” e “inúteis” diante da grande massa de iletrados, como a própria Regina.

É duro alfinetar desta forma uma atriz tão consagrada por seus trabalhos em TV, cinema e teatro. Falar de Regina Duarte para quem estuda a história da nossa televisão é lembrar de papeis marcantes como Rosana Reis e Simone Marques (Selva de Pedra, 1972), Malu (Malu Mulher, 1980), viúva Porcina (Roque Santeiro, 1985) e tantos outros dentro e fora das câmeras, personagens viscerais, expressivos e históricos que lhe dão crédito como uma grande atriz respeitada no meio.

Mas… em tempos atuais, um respeito que virou poeira. A falta de movimento da secretaria de cultura do governo federal parece demonstrar o lado mais triste da personalidade de Regina: a de fiel seguidora dos preceitos culturais castrados do poder atual. Para o status quo, a manifestação artística saudável (salvo exceções que devem ser exceções) afronta a tão profanada “moral e bons costumes”, além de ser vista mais como encargo do que investimento para a formação e evolução de nossos movimentos.

Se Regina não entendeu, a arte é, na sua raiz, transgressora, contesta ao mesmo tempo que encanta com suas demonstrações em suas frentes. Pode ser um questionamento direto ou indireto, quando o artista se coloca como funcionário da arte nacional vivendo nas mazelas ou povo, eleitor e pagador de seus impostos. E no contexto de força produtora, a arte gera divisas, ao artista e a seus intermediários, assim dizendo.

Mas como fazer entender quem não quer entender? Desde o começo do governo Bolsonaro, as atitudes de desmonte da arte nacional em suas raízes tem sido gritantes, a começar pelo fim do próprio ministério. A chegada da Covid-19 só escancara ainda mais o descaso com a classe artística nacional, completa ainda mais com o silêncio gritante de quem deveria, conhecendo seus interiores, militar pela sua salvação: a agora secretaria de cultura, subordinada ao Ministério do Turismo.

No entanto, o silencio permanece: dolorido, funesto e hipnótico diante da classe artística. Todos parecem assistir a derrocada da cultura, menos Regina, que já teve até de familiares o pedido para deixar o governo. E enquanto a pasta cultural brasileira segue seu curso cruel, cabe a tão somente seus produtores – os artistas em suas frentes – cavar um futuro ainda tão nebuloso como nos tempos antigos, onde transgredir era a forma de escandalizar quem tem fome de arte, de música e cinema genuinamente nacionais e autênticos espelhos da realidade.

Ainda há tempo, Regina. Você tem uma dura escolha a fazer: continuar seu desmonte como artista e militante da classe ou abandonar a barca furada antes que o naufrágio a leve junto. Os seus pares pedem sua palavra, então fale e libere seu lado pensante. Afinal, o “lobo mau” não quer que a “chapeuzinho vermelho” pense como uma artista, mas como uma partidária.

Regina? Cadê você, Regina?

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