Entre minhas pesquisas sobre a história através dos dias, me deparei com uma data que traz pena misturada com reverencia: em 2020, fazem 20 anos que nos despedimentos de um gênio do cartunismo mundial: Charles M. Schulz, o pai de Snoopy, o criador da série de tiras “Peanuts” que originou as histórias desastradas e inspiradoras de Charlie Brown, Linus, Lucy, a tal da “menina ruiva” e do beagle mais famoso do mundo, entre outros.

As tiras, sempre com o tom ingênuo e inocente de uma infância permeada por descobertas, viraram desenho animado que, até hoje, faz marmanjos suspirarem e crianças se deslumbrarem. Parece difícil, de princípio, entender os dilemas pelos quais passam Charlie Brown e seus amigos, sobretudo Charlie, o retrato fiel da infância e adolescência de Schulz.

Não posso mentir aos amigos do PI, me identifico com Charlie Brown. Um garoto inocente, que não era muito bom em esportes, as vezes meio solitário e que sempre sonhou em descobrir o verdadeiro amor. Ao seu redor, seus amigos sempre dando as guias de como fazer e o que fazer, desde petelecos emocionais até mesmo aquele tapinha nas costas quando algo saia do prumo.

E se você, por um momento, pesquisar na internet frases que vem das tiras e do desenho animado, você se assusta com as verdades que Charlie Brown dispara sobre nosso dia a dia e nossa incessante busca do amor. Não cabe aqui cita-las, e talvez o vídeo abaixo, extraído de um dos episódios da série, possa explicar o que digo:

Inocência, ingenuidade, uma pureza que só a infância tem. Sabe que isso faz falta hoje em dia. As vezes rodo pelos aplicativos de paquera (lê-se Tinder, Badoo e por ai vai), pelas redes sociais ou até mesmo cruzando por pessoas na rua e as relações humanas, em todos os seus níveis, parecem se blindar diante de momentos fugazes e elementos artificiais, as vezes para se viver o que “está na moda”, o que “mandam as tribos”, tudo para se incluir num mundo mais virtual do que real.

É como se deixássemos de ser nós mesmos, de seguir nossas filosofias e convicções, em nome de uma aceitação que parece nunca vir. Desperdiçamos chances de amar verdadeiramente e de viver momentos únicos pelo simples temor do que isso pode representar para nossa imagem diante dos outros. E cada vez mais, o que mais bonito há na vida fica registrado para a próxima curtida nas redes.

E o que tem a ver Charlie Brown com tudo isso? Como uma criação de 60 anos pode nos ensinar a recuperar nós mesmos e nossas ideias próprias diante da artificialidade da vida atual? Olha, por mais que Charlie tomou seus petelecos de vida, ele nunca deixou de acreditar naquilo que ainda move a nós todos: o verdadeiro amor, aquele que não vê cara nem obstáculos, mas simplesmente sincroniza o bater do coração de igual pra igual.

Charlie era ingênuo, tinha um mundo todo diante dele que lhe soava duro, difícil e incompreensível, mas essa inocência que ignora as convenções que esfriam tudo é o grande barato. Uma surpresa, uma descoberta inspiradora, uma flor no canteiro, o sol se pondo, nada precisa de uma explicação padrão, só deixar os momentos fluírem, acontecerem, prontos para serem apreciados e onde a voz da frieza é só um trombone tocando qualquer coisa, como os adultos que cercavam Charile.

Independente dos movimentos e da correria que o cotidiano nos leve, o ideal é procurar esta leveza inocente que está nos pequenos detalhes do dia. Permita-se criar suas reflexões, poesias (sensibilidade sempre!), seus momentos. Deixar-se levar pela sua própria forma de viver, de ser e, claro, de amar.

Ah, como esse mundo seria mais fácil se todos fôssemos Peanuts, com um mundo todo para sentir e se descobrir. Quem sabe um dia, pois o que é artificial, se vai. Só reparar no que não se repara e viver como se tudo fosse verdadeiramente novo, diferente, passível de abrir a mente em cores.

Quem sabe um dia seremos mais Peanuts, Charlie Brown.

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